Antologio

🚶Calçadões ⊻ 🚘 carros (🇩🇰 Strøget) / Planeta

Camilo Gomide. Revista Planeta nº 495, de fevereiro de 2014. Artigo Cidades Prazerosas: Enquanto países engatinham na elaboração de agendas nacionais sustentáveis, cidades como Copenhague, Viena, Londres e Melbourne criam modelos locais eficientes e prazerosos para os cidadãos e reduzem cada vez mais os impactos ambientais.

Se a Dinamarca tivesse seguido a corrente rodoviária dominante desde a década de 1960, nunca viraria um modelo de planejamento urbano. Em uma época em que parecia fazer mais sentido priorizar o trânsito de carros, Copenhague apostou na criação da primeira rua para pedestres do país. Antes de se tornar o maior calçadão da Europa [em 1962], com 1 km de extensão, a Strøget era uma rua comercial dominada por automóveis, assim como todo o centro da cidade. No Natal de 1962, a região foi vetada aos veículos. Eles começaram cedo.

O arquiteto por trás da iniciativa, Jan Gehl, acreditava que os espaços urbanos deveriam servir para a interação social. Na época, foi criticado pela imprensa e por comerciantes, que ponderavam que as pessoas não passariam muito tempo ao ar livre em uma capital gélida. Erraram. As vendas triplicaram e a rua de pedestres foi ocupada pelos moradores. Hoje [em 2014], 80 mil circulam pela rua 24 horas por dia.

A experiência reforçou as convicções de Gehl, que defende o planejamento das cidades para o usufruto e o conforto das pessoas. “Somos guiados por nossos sentidos. As coisas têm de estar ao nosso alcance, à nossa altura. A arquitetura tem de ser orientada pela nossa percepção. Os lugares habitáveis são lugares por onde você pode caminhar”, observa David Sim, arquiteto da Gehl Architects.

“Não pensamos na sustentabilidade apenas pelo viés ambiental, mas em termos sociais e econômicos também”. diz David Sim. Para ser sustentável desse triplo ponto de vista, uma cidade precisa ser desfrutável. Um dos maiores obstáculos para tanto, na maioria dos grandes centros urbanos do século XXI, é o trânsito.

As experiências de mobilidade mais bem-sucedidas pelo mundo investem em um modelo de ações combinadas: aproximar as pessoas dos locais de trabalho, melhorar as calçadas e passarelas para pedestres e priorizar o transporte coletivo ou os individuais não motorizados. Cidades como Londres e São Paulo, por exemplo, sofrem com um número excessivamente alto de carros que congestionam as vias e poluem o ar. As consequências de um sistema de transporte que não flui, não atende a todos e polui ultrapassam as perdas econômicas e os danos de saúde. Elas confiscam das cidades o prazer e a esperança de melhorar.

☞ Cidades para Pessoas - Jan Gehl - Editora Perspectiva

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